Foi hoje publicado o Relatório de Estabilidade Financeira de maio de 2026 no qual se avalia os progressos da economia portuguesa e do sistema financeiro.
De acordo com o Banco de Portugal, os riscos para a estabilidade financeira acentuaram-se recentemente, refletindo o agravamento de tensões geopolíticas com o conflito no Médio Oriente e a possibilidade de uma eventual correção súbita e desordenada dos mercados financeiros, com impacto na economia real. O aumento da incerteza e a diminuição da confiança dos agentes económicos influenciam as condições de financiamento e as decisões de consumo e investimento, impactando a evolução dos preços e o crescimento económico. A nível nacional, este contexto foi agravado, no início de 2026, pela ocorrência de um choque climático extremo — uma sequência de tempestades — com impactos relevantes em algumas regiões do país, evidenciando a crescente materialidade dos riscos climáticos e da natureza.
O contexto atual propicia a materialização simultânea de choques de diferentes naturezas — macroeconómica, financeira, geopolítica e climática —, constituindo um fator de risco particularmente relevante para o sistema financeiro nacional, dada a potencial amplificação dos seus efeitos.
Uma correção dos preços no mercado imobiliário residencial continua a representar um risco importante para o sistema financeiro em Portugal. A escassez de oferta pressiona os preços da habitação, num contexto de procura robusta, impulsionada por medidas governamentais e pela participação significativa de compradores estrangeiros. Um cenário de maior restritividade da política monetária, deterioração das condições económicas ou correções abruptas nos mercados financeiros internacionais, poderá conduzir a correções noutros mercados, incluindo nos preços do imobiliário. Conter pressões do lado da procura contribui para voltar a níveis de equilíbrio.
Acrescem ainda os riscos operacionais e de cibersegurança, que assumem relevância crescente para a estabilidade financeira, num contexto de desenvolvimento acelerado de novas tecnologias de escala, como a inteligência artificial. A aceleração da digitalização aumenta a dependência face a prestadores externos e a infraestruturas críticas e, assim, o risco cibernético sistémico. Incidentes desta natureza podem afetar a confiança no sistema financeiro e amplificar efeitos adversos, tornando essencial o reforço da resiliência operacional e a implementação do DORA.
Também os riscos climáticos físicos e de transição ganham maior relevo, refletindo a sua crescente materialização. Estes riscos podem afetar a solvência dos agentes económicos, gerando impactos macrofinanceiros não lineares, amplificados por interligações sectoriais, sobretudo em sectores mais intensivos em carbono. Ainda que o sistema financeiro possa estar resguardado no curto prazo, episódios recentes, como as tempestades em Portugal, demostram os efeitos adversos destes riscos.
A economia portuguesa manteve-se resiliente em 2025, sustentada pelos progressos estruturais alcançados na última década. Contudo, persistem vulnerabilidades relevantes.
No sector público, existem pressões sobre a despesa — associadas à resposta a choques e a desafios estruturais, como o envelhecimento populacional, a transição climática e a defesa —, apesar da melhoria continuada da posição orçamental na última década. A manutenção da trajetória de consolidação das contas públicas permanece essencial. Adicionalmente, riscos associados ao enquadramento internacional, designadamente a possibilidade de reavaliações abruptas do risco soberano em grandes economias avançadas, poderão repercutir-se nas condições de financiamento.
Nas empresas, choques externos e uma possível deterioração das condições económicas e financeiras poderão aumentar o risco de crédito. Em 2025, as empresas apresentaram uma situação financeira robusta, com níveis elevados de rendibilidade e liquidez, ainda que com diferenças entre sectores. As empresas de sectores mais expostos ao contexto internacional ou mais alavancadas são as mais vulneráveis a pressões nas margens e no financiamento.
Nas famílias, a recente redução da taxa de poupança e o aumento do rácio de endividamento, impulsionado pelo dinamismo do crédito à habitação, aumentam a vulnerabilidade a novos choques. A situação financeira das famílias portuguesas permanece globalmente sólida, como endividamento em níveis historicamente moderados e a poupança relativamente elevada. Contudo, o perfil de risco poderá deteriorar-se num contexto de aumento dos encargos com o serviço da dívida, preços elevados da habitação e eventuais alterações de política monetária, a que acrescem potenciais efeitos de contágio do setor empresarial.
Num contexto de elevada incerteza, o sistema bancário português manteve-se resiliente, com níveis historicamente elevados de rendibilidade, capital e liquidez o que lhe confere alguma margem para absorver choques no curto prazo.
Contudo, o prolongamento e agravamento das tensões geopolíticas, com impactos adversos nos mercados financeiros e no sector do imobiliário, poderão degradar a situação financeira das empresas e das famílias, com impacto também no sector bancário. O atual desempenho financeiro sólido dos bancos em Portugal aliado à melhoria da qualidade dos ativos, constitui um importante fator mitigante.
As medidas macroprudenciais em vigor continuam a contribuir para a estabilidade financeira e para a resiliência do sector bancário. Em particular, em 2026, a introdução da reserva contracíclica (CCyB) de 0,75% reforçou o nível das reservas macroprudenciais libertáveis. Em conjunto com a Recomendação Macroprudencial relativa aos novos créditos à habitação e ao consumo, estas medidas de capital reforçam a resiliência do sector.
Esta edição do Relatório de Estabilidade Financeira inclui dois temas em destaque:
- Riscos de transição climática: qual o seu impacto no crédito às empresas?
- Exposição energética e choques petrolíferos: impactos nas empresas e no crédito bancário
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